SOBRE A MORTE
Não devemos lamentar os mortos.
Devemos, sim, vivificar e aproveitar a vida, para jamais sermos pegos desprevenidos pela Morte e não nos arrependermos de não ter dito algo a alguém, de não ter amado mais,
de não termos sido mais amigos, mais companheiros quando alguém precisou.
Uma coisa que eu aprendi nos últimos anos foi que tudo passa, isso é inevitável.
Mas nossa vida é feita do PRESENTE, do AQUI e AGORA, por isso devemos saber o que realmente é IMPORTANTE na nossa vida.
Não precisamos aprender a lidar com a MORTE, precisamos aprender a lidar com a VIDA.
A MORTE é o que se FOI e não mais será, pelo menos aqui, nesta dimensão espaço-temporal em que nossos corpos se encontram agora.
Pois as coisas vêm e se vão, naturalmente, e muitas coisas que as vezes colocamos em primeiro lugar, na verdade não têm a importância que acreditávamos ter.
Para tudo há uma outra chance, menos para o tempo, o tempo não volta, se escoa, inexorável.
O trabalho, a internet, as diversões, o lazer, o prazer, o jogo de futebol, os jogos no PC, a corrida de F-1, tudo isso são coisas passageiras, que podemos fazer depois, ou viver depois,
mas, as pessoas, principalmente as pessoas queridas, essas criaturas maravilhosas que convivem conosco, ah, elas precisam da gente, da mesma forma que precisamos delas, não importa o dia ou a hora...
por isso não podemos negar a elas o nosso TEMPO, para lhes dar o nosso amor, a nossa sabedoria, o nosso consolo, o nosso sorriso, o nosso abraço, a nossa palavra ou o nosso silencio, o nosso carinho,
a nossa compreensão, a nossa luz, o nosso "puxão de orelha", ou seja lá o que for preciso de nós.
O que eu quero dizer é que as pessoas que amamos agora estão aqui, perto da gente, amanhã talvez não estejam mais, por isso é devemos dar e revelar tudo o que possuímos em nossos corações,
pois AMANHÃ pode ser TARDE DEMAIS para estarmos com alguém ou revelar a esse alguém o que ficou oculto em nossos corações por dias, meses, anos, talvez até por séculos e que jamais tivemos coragem de contar.
Não adianta lamentar o que deixamos de fazer antes do suave ou arrebatador toque da MORTE.
Há três anos perdi minha avó por parte de mãe. Foi tudo muito rápido, ela estava com 76 anos mas não era doente (tinha a saúde que precisava dos cuidados normais para essa idade e ela se cuidava),
então ninguém esperava que, numa noite de sexta-feira ela tivesse uma parada cardio-respiratória e, embora tenha sido levada para a UTI e recebido vários cuidados, entrasse em coma logo em seguida.
Dia a dia ela definhava mais naquela cama, cheia de tubos, os olhos vidrados, sem reconhecer nada ou ninguém, mantida apenas pelos aparelhos, reduzida a um vegetal. Em uma semana ela faleceu, graças a Deus e a Deusa,
pois, se voltasse do coma, estaria com as pernas amputadas e jamais poderia fazer nada sozinha,
presa em uma cadeira de rodas e sem coordenação motora. Para Amélia, minha avó, que todos os dias, às 7:00 h já estava de banho tomado, perfumada, maquiada, arrumada, de sapato de salto,
mesmo para ficar em casa, ir ao quintal colher verduras na horta ou sair, para ela, ser reduzida a um vegetal era mil vezes pior que a morte.
Pelo menos agora seu espírito está livre, sem amarras ou limitações, sem sofrimentos ou frustrações, desvendando novos segredos e mistérios.
Desnecessário dizer que a rapidez com que isso tudo aconteceu abalou a todos, principalmente à minha mãe e meu avô, que quase morreram também, ela de depressão e ele do coração.
Minha mãe ficou deprimida por mais de um ano. Meu avô chorava e até hoje chora ao falar da minha avó.
Mas as lágrimas do meu avô contém um quê de culpa, pois ele sente que, no fundo, no fundo, poderia ter feito minha avó mais feliz, ter evitado que ela sofresse tanto por ele, ter dado mais valor para ela enquanto ela era viva.
Minha mãe ainda é imatura demais, delicada demais, sensível demais para lidar com as faces da Deusa, para lidar com as transformações que a vida nos dá a cada dia, por isso ela agora se agarra em mim,
mas eu tento lhe mostrar que eu também passarei, casarei, sairei de casa um dia, serei mãe e terei que enfrentar a realidade da vida, de que pais e filhos são companheiros de viagem, livres, e não posse um do outro.
Tudo nasce, cresce, frutifica, envelhece, morre, muda de forma e retorna. Somos como a água, que evapora e se liquefaz novamente em forma de chuva e retorna para formar um novo oceano, um novo mar, um novo rio,
um novo lago, um novo regato, um outro começo, uma nova história. Podemos nos separar das outras gotas d'água que conhecemos, mas, mas cedo ou mais tarde voltamos para o mesmo ponto e nos reencontramos.
Não tenham medo da MORTE, ela é apenas outro nome, outra porta para a VIDA.
VAMOS VIVER E FRUTIFICAR O AGORA!
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